23 de novembro de 2010

Medronhos maduros

Entre a espada e a parede

A hora mudou para o cedo se fazer tarde. É o tempo das castanhas no lume, que o meu nariz persegue na rua com prazer.  A chuva molha-me as botas a caminho do trabalho, mas o que eu queria mesmo era chapinhar nas poças e ficar a olhar para as gotas que caem, com a boca aberta, à espera de matar uma sede qualquer. O verão passou tão depressa, tão depressa que eu já não sei ler nem escrever. Há outra vez uns braços que vêm mas que em breve partirão e eu para aqui sempre a olhar para o meu próprio ventre e a pensar de onde veio esta cicatriz redondinha e como dar-lhe a volta por fora sem torcer o pescoço. Quero saber o sabor dos dias e das noites sem sobressaltos como quando era só eu e a chuva. Tenho saudades e nem sei de quê.

2 de novembro de 2010

Ansel Adams











Isso

"Much of the modern clash between science and religion focuses on questions about whether God exists independently or is a construct of the brain and whether the soul lives on after the body or ends when the brain dies. Are these crucial religious questions? I would argue that they are not. For the vast majority of people, religion is a way of life. It is about community and music, place and food, comfort and emotional support. It is, like all of human culture and experience, a function of our peculiar neurobiology, and we should try to appreciate it as such."

Michael Graziano, Big Questions Online

And he does it, oh yes he does

“When I’m on stage I want to rip your throat off with the music, I want to beat you into a pulp with the law. I bring the law, I bring it! So you wanted to live by it? You wanna know what’s good and evil? OK, let’s talk about it, if you wanna live by your expectations or someone else’s. But I know that you can’t do it, and I wanna help you get there real quick, to the point where you realize that you’re completely hopeless without the mercy of God”  – David Eugene Edwards.


WOVENHAND - Your Russia from Stefan Raduta on Vimeo.

1 de novembro de 2010

Em cima da cómoda

Optimismo invertebrado

"Quando perco tudo, resta-me Deus. Se afasto Deus, encontro-te. Não se pode ter ao mesmo tempo a noite imensa e o sol".

Marguerite Yourcenar, Fogos

25 de setembro de 2010

O som das palavras

Gosto mais de umas palavras que de outras. Umas pelo significado, outras pelo som. Perguntas-me de que palavras gosto mais e eu digo-te que gosto da palavra tempo, porque me lembra o som dos sinos que tocam. Sempre gostei do som dos sinos, sobretudo desde que comecei a viajar para outros países e a ouvi-los com a atenção particular dos viajantes pelo novo, pelo distante. Para ti o tempo tem o som do bater de um coração: tem-po, tem-po, tem-po, dizes-me. Encosto a cabeça ao teu peito. A partir deste momento, o som do tempo mudou para sempre.

16 de setembro de 2010

Folhas de Outono

Mal ou bem, com as folhas do Outono há sempre coisas boas a entrar na minha vida. É por isso que anseio sempre um pouco a sua chegada. Num dos primeiros dias de Outono do ano passado, ao passar numa rua do meu bairro, percebi que as folhas das árvores tinham começado a ficar amarelas. Então olhei para cima e, nesse preciso instante, uma delas soltou-se e caiu lentamente, ondulando com o vento, até eu esticar a mão e a apanhar com cuidado. Guardei-a na mala e tive-a em cima do móvel do hall até há pouco tempo. Espero poder substituí-la em breve.
 

14 de setembro de 2010

Regresso a casa

Lentamente, faço as pazes com a cidade que me adoptou. Começo a levar-me menos a sério e, por isso, a deixar-me levar pela vida. Encontro uma muito ansiada espécie de paz. O sol já não me cansa da mesma maneira, embora o meu corpo mole anseie a frescura do Outono, se não mesmo o frio do Inverno. Agora já me apetece outra vez ler romances tristes e profundos, com cenários bucólicos e personagens silenciosos e distantes. As suas dores já não me agridem e já não preciso do calor dos outros para me esquecer  de mim. Um dia ainda hei-de perceber porque é que, ao contrário de quase toda a gente, me sinto feliz com a proximidade do Outono. Porque é que só tenho forças para me enfrentar quando a natureza começa a morrer devagarinho e anoitece cada vez mais cedo. Se eu não tivesse feito as pazes com esta cidade, tentava emigrar para uma terra fria com neve e com alces. Ainda um dia hei-de ansiar o Verão como quem deseja uma boca quente e húmida para beijar.

21 de julho de 2010

Simplesmente ser

Apetecia-me ir-me embora, mas não para um sítio específico, ir simplesmente, em linha recta, até passar tempo suficiente para que renasça em mim a vontade de regressar e que no meu regresso as coisas possam estar tão diferentes, tão mudadas, que o percurso de volta já não seja o mesmo mas um outro e que já não esteja ninguém à minha espera, para eu poder renascer no mesmo lugar de sempre, que é como quem diz apetecia-me mudar de pele, viver outra vida que não a minha, que é como quem diz apetecia-me que o tempo que passou não tivesse passado e que as coisas que vivi não tivessem acontecido, ou melhor, que tivessem acontecido na mesma mas só aos outros e não a mim, que é como quem diz apetecia-me não ter memórias, esquecer-me das coisas todas que já fui, das pessoas todas com quem já me cruzei, que é como quem diz apetecia-me ser mas não ser, deixar de ter peso e volume, que é como quem diz apetecia-me morrer, mas não morrer a sério, não que o meu coração parasse, que o sopro da vida se me apagasse num último suspiro, não, apenas descansar, desligar, deixar de pensar em coisas, simplesmente ser, como os bichos.

Na curva da estrada

Acordo outra vez com o vazio a alastrar como uma mancha de óleo pelas paredes do quarto, a chegar aos pés da cama, a pingar do tecto sobre a minha pele. Gostava de perceber como é que pude tão irreflectidamente permitir-me voltar a ter medo de acordar. E que coincidências são estas que me movem por uns caminhos que, a princípio a medo, decido trilhar e que tendem a levar-me para desertos, colinas desoladas, campos minados onde acabo inevitavelmente por ferir-me, levando depois muito tempo a recuperar, tempo esse que seria com certeza bem mais proveitoso se usado para me fazer mais eu e menos outra qualquer.
Talvez fosse preciso eu chegar aqui, a este lugar, com esta precisa idade, tendo vivido exactamente o que vivi, para poder perceber que crescer também é um mito e que a minha arrogância não me leva mais longe, antes pelo contrário. E este é mais um dos ensinamentos de humildade que precisava que a vida me desse para crescer a sério, no sentido certo, não naquele em que durante muito tempo julguei que devia mover-me, que os rios correm para o mar e assim vão durante o tempo e o espaço que for preciso, sem quererem crescer para cima, como as árvores, pois não se cumpririam rios se assim não fosse e as árvores igualmente procuram o céu, mas contentam-se em permanecer ligadas ao mesmo ponto da terra durante toda a vida, que às vezes é uma infinidade quando comparada com as idades dos homens.
Falta-me aprender a suportar a dor da minha finitude para me poder cumprir eu também no meu corpo. E se eu nunca aprender isso, que ao menos me sirva de consolo ter chegado a esta curva da estrada e saber que a seguir há-de ser sempre tudo igual e que não há nada para perceber, não há prateleiras para arrumar as vidas, nem livros onde as possamos aprender ou explicar, nem nomes para as lágrimas ou para o riso, nem classificações para os vários tipos de calor que sinto dentro do peito quando me imagino nos teus braços ou para o gelo que me torna numa estátua quando a tua ausência ganha a forma voraz dos seres mitológicos imaginados pelos homens ao longo dos tempos.
Estamos todos sós, a caminhar entre o céu e a terra, com mais ou menos força, mais ou menos vontade. Vamos todos na mesma direcção, quer queiramos, quer não. Queremos todos chegar a um sítio melhor, senão não íamos, ficávamos, imóveis como as plantas ao sabor das estações. E é esse misterioso lugar que o amor nos permite entrever e que, por isso, nos aproxima da morte. E é por isso que eu, independentemente do que possa ter aprendido, continuo unicamente a desejar morrer nos teus braços.

17 de julho de 2010

Europa

Encontrei um estranho num comboio em Munique e então pensei, que rapaz tão bonito, que lindos olhos verdes e depois conversámos e o estranho foi-se embora mas antes beijou-me e eu gostei dos lábios dele e depois encontrei um estranho num bar em Salzburgo e então pensei, que senhor tão simpático, que sorriso tão afável e depois o estranho foi-se embora e veio outro e esse era de Budapeste e era tímido mas agarrou-me e beijou-me e eu não queria mas beijei-o e depois fui-me embora e depois encontrei o estranho simpático do sorriso afável em Paris e ele disse-me, que rapariga tão linda, lembro-me de te ter encontrado em Salzburgo e gostei de ti e então o senhor já não era um estranho porque eu já estava a falar com ele pela segunda vez noutra cidade diferente e depois ele disse és mesmo tu e eu acreditei que ele se lembrava de mim por ser mesmo eu e ele abraçou-me e beijou-me e disse que queria voltar a encontrar-me noutras cidades e eu acreditei e então ele agarrou-me por baixo dos braços, como se faz às crianças, e olhou-me nos olhos e atirou-me ao ar e eu subi a sorrir em direcção às nuvens e ele olhava para mim e sorria e eu devia cair de volta nos braços dele em Estugarda e ir com ele de mão dada até Zurique e sustive a respiração assim durante uns segundos e quando vinha a descer os braços dele já não estavam lá e eu estatelei-me no chão.

Como um sonho acordado

Como se a Terra corresse
Inteirinha atrás de mim
O medo ronda-me os sentidos
Por abaixo da minha pele
Ao esgueirar-se viscoso
Escorre pegajoso
E sai
Pelos meus poros
Pelos meus ais
Ele penetra-me nos ossos
Ao derramar-se sedento
Nas entranhas sinuosas
Entre as vísceras mordendo
Salta e espalha-se no ar
Vai e volta
Delirante
Tão delirante
É como um sonho acordado
Esse vulto besuntado
A revolver-se no lodo
A deslizar de uma larva
Emergindo lá no fundo
Tenho medo ó medo
Leva tudo é tudo teu
Mas deixa-me ir

Arrasta-me à côncava funda
Do grande lago da noite
Cruzando as grades de fogo
Entre o Céu e o Inferno
Até à boca escancarada
Esfaimada
Atrás de mim
Atrás de mim
É como um sonho acordado
Esses olhos no escuro
Das carpideiras viúvas
Pelo pai assassinado
Desventrado por seu filho
Que possuiu lascivo
A sua própria mãe
E sua amante

Meu amor quando eu morrer
Ó linda
Veste a mais garrida saia
Se eu vou morrer no mar alto
Ó linda
E eu quero ver-te na praia
Mas afasta-me essas vozes
Linda

Tens medo dos vivos
E dos mortos decepados
Pelos pés e pelas mãos
E p´lo pescoço e pelos peitos
Até ao fio do lombo
Como te tremem as carnes
Fernão Mendes

Fausto