9 de Novembro de 2009

Cântico Negro

Tudo à minha volta padece de males de amor, tudo se ressente de discussões, desilusões, separações, saudades, ausências... Reciclamos. Revivemos. Reinventamos paixões. Sempre à espera de encontrar uma coisa qualquer, a tal da metade cujo sonho nos venderam ou, na falta dela, alguém que seja o mais parecido possível (pode ser que ninguém note a diferença). E para aqui vamos fingindo que somos modernos e independentes, que podemos ter relações umas a seguir às outras e seguir em frente sem sofrer nenhum arranhão. Que podemos continuar todos a ser amigos e a beber copos à esquina como se os sentimentos fossem e viessem ao ritmo das estações do ano, repetidos, idênticos, sem deixar marcas para o ano seguinte. Ironicamente, até as estações do ano agora deitam abaixo os castelos, porque já não há nuvens, só calor e secura fora de época. As sementes não germinam debaixo da terra. Secam e perdem-se para sempre. E eu vou-me apaixonando por coisas, figuras, músicas, filmes, actores e actrizes, músicos e cantores, pessoas que invento, retalhos deste e daquele e de mim para me manter viva e não enlouquecer. Nas histórias que me contavam, as mulheres casavam virgens e era para toda a vida. O almoço e o jantar estavam na mesa a horas certas, a roupa cheirava sempre bem e suportavam-se coisas com um estoicismo quase genético, sem questionar o sentido daquilo tudo. Cresci assim, rodeada de coisas antigas, no meio de um caos sólido e austero contra o qual comecei a revoltar-me muito cedo. Tive sempre vontade de ser livre e independente, acima de qualquer outra coisa. E sou. Livre. Independente. É muito fácil saber-se o que não se quer, difícil é o resto.

21 de Outubro de 2009

Outono a sério pelas ruas da cidade

Mais um regresso.

11 de Outubro de 2009

E outras vizinhanças


Mudanças


8 de Outubro de 2009

Lugar lugares

"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo — diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas. Temos medo. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... Claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. Um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E o outro, o outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de março. Uma partida. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais triste que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia agarrar num copo: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois, e depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora."

Herberto Helder, Os Passos Em Volta

3 de Outubro de 2009

HURT

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Wouldn't we all, someday?

“I used to be a mailboy in the Justice Department in Washington”, he said. “I felt I was becoming transparent. I had the feeling that after I ate dinner, people could see the food in my stomach. That’s just one of the things that was happening to me. I began to fear that chunks of government buildings would dislodge and fall on the top of me. But I think the worst thing of all was when I was walking on a crowded street. You know how people jockey back and forth, the fast walkers trying to overtake the slow walkers. There’s always a lot of shoving and the fast walkers are always stepping on the slow ones and knocking their shoes off. I was a fast walker. I was always hurrying even when I was just going for an aimless stroll, and I used to get annoyed when slow walkers got in my way. One day I was trying to get around an old man who kept drifting toward the curb and blocking my path and suddenly I found myself shouting at him in my own head, shouting inwardly and silently: LOOK OUT! LOOK OUT! I never actually spoke the words. I just shouted them mentally. I began to do that all the time. LOOK OUT, I would say to people. MOVE! MOVE! And I could see the words in my head in big block letters like a cartoon. Then one day a woman slowed down suddenly and I almost crashed into her. I found myself shouting a new word in my head: DIE! If I had said it aloud she probably would have died. It was really a hideous inner scream and I could see the word in my head in red letters with a big exclamation point. I began to realize I was abnormal. I was a person who walked along the street mentally shouting DIE at innocent people. After several months of this I tried to make a conscious effort to stop shouting the word. But it was too late. It just popped into my head automatically. DIE! DIE! I’ll tell you the kind of person I was. I was the kind of person who’s always falling in love with the wives of his best friends.”
“Have you stopped shouting DIE?” Sullivan said.
“I stopped shouting it the day I quit my job and I haven’t shouted it since. I haven’t shouted anything since[…]”.

Don DeLillo, Americana

16 de Setembro de 2009

Sem nada para fazer...











10 de Setembro de 2009

Adulteza

Lembro-me de gostar, desde muito criança, do cheiro a perfumes fortes misturado com tabaco. Sobretudo nas mulheres. Também adorava o cheiro dos cigarros acesos dentro do carro, do fumo a viajar até ao banco de trás onde eu o inalava com prazer. Acho que o prazer que tirava destes cheiros tinha a ver com as fantasias que construía em volta deles, com o que me transmitiam de luxúria, de algo proibido que as aparências e os comportamentos dos adultos tentavam disfarçar na minha presença, mas que chegava até mim e me fazia desejar ser assim quando crescesse, uma mulher a cheirar a YSL e a tabaco. Agora que cheiro assim, fico cheia de inveja das miúdas que cheiram a champô e óleo Johnson’s. Acho que têm um cheiro lavadinho, uma coisa pura e sem falhas. Pressuponho-lhes as pernas sem celulite, os seios firmes e orgulhosos, os cabelos fartos e brilhantes e sinto os meus trinta e um anos a pesar-me. Mas conforta-me a minha sabedoria, aquilo a que chamamos maturidade e que os ingleses chamam, se traduzirmos à letra, adulteza e que é uma palavra magnífica para designar o que mais valorizo hoje nas pessoas que me rodeiam. Maturidade soa a coisa que está no ponto mas que já não se aguenta por muito mais tempo. Adulteza é coisa sólida, firme, coisa construída a pulso para gerações futuras apreciarem. (Cada vez gosto mais da língua inglesa.)

6 de Setembro de 2009

Regresso (lentamente)

As coisas todas que trago comigo são grandes e crescem, ganham peso, fazem uma sombra cada vez maior a cada dia que passa. E a minha pele continua a tornar-se cada vez mais fina, os órgãos já quase à vista, a alma despida, nuazinha em pêlo, os sentidos alerta, a fazer sentinela, a toparem cada folha a mexer-se como um guerrilheiro na selva, rodeado de ameaças gigantes e desconhecidas. À procura da justificação, da razão deste estar-se num sítio a sobreviver, a olhar por cima do ombro. À procura de saber o que vale a pena, de saber se ter medo vale a pena, sabendo que não se pode simplesmente largar tudo e mudar de lugar. É assim. Foi assim. Aprende-se a caminhar sob as sombras, a entrever a luz como uma bênção, a dar-lhe valor, cada dia de sol uma dádiva. Aprende-se a carregar os pesos que vão crescendo (ainda falta aprender o que fazer com eles). Está-se sempre a caminhar, mas sempre à procura e, suspeito, na direcção errada. Já ninguém se lembra do cheiro nem do sabor da terra. Quanto mais pensamos e mais aprendemos mais nos esquecemos do que é verdadeiramente importante.

2 de Agosto de 2009

Consider The Birds

para a Joana e para a Tânia

A terra tem muitas cores. Esta que agora vejo é vermelha, pontilhada nas encostas pelo verde das copas das árvores. Erguendo os olhos, esmaga-me o azul profundo do céu. Ao longe, no horizonte, o mar ainda ondula, azul escuro, a acenar-me adeus, orlado do mesmo branco dos dois ou três flocos de nuvens que pairam sobre a terra. Os meus olhos podem ver tudo isto, o que só pode ser uma bênção. Como são abençoados os pássaros que rasgam o horizonte à minha frente, entre o mar e a terra, espalhando vida pelo ar. Embalam-me os acordes de uma guitarra inspirada por Deus. A Sua graça não podia deixar de me acompanhar agora. Gostava que pudesse acompanhar-me sempre, para eu não voltar a esquecer-me de que estar vivo é esse maior dos acasos e que esse instante irrepetível tem de ser lembrado, valorizado e agradecido, todos os instantes, de forma natural e pura, como vi ontem nos olhos de um pescador. É preciso ter-se a certeza. Sempre. A salvação está mesmo aqui e agora. Não se pode esperar nada do tempo que há-de vir, nem de quem virá com o tempo. Não se pode pedir demissão disto tudo: do céu, do vento, da terra, do mar, dos pássaros que espalham vida pelo ar.
É preciso querer voltar a ver uma seara dourada pelo Sol a ondular com o vento, um pomar de árvores verdes carregadas de frutos, o azul do céu e do mar, o vermelho da terra, um sorriso sincero, um gato a espreguiçar-se, a pureza de um olhar. É preciso querer voltar a cheirar a terra molhada, o pão quente, o mar, a urze, o café acabado de fazer. É preciso querer voltar a saborear um fruto, verde ou maduro, um copo de vinho, uns lábios. É preciso querer voltar a sentir a areia entre as mãos, uma almofada macia, a casca de uma árvore, um abraço apertado, o vento na cara. É preciso querer voltar a ouvir os pássaros, o mar, o vento, as vozes de quem amamos e de outros que venham, os acordes de todas as músicas que falam connosco. É preciso acreditar. É preciso acreditar.

“Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
(Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso.
Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

Bíblia, Mateus 6:26

25 de Julho de 2009

laud

"the morning comes
I've not yet closed my eyes
cold and bright as I need it
the sun does rise"















12 de Julho de 2009

Sem comentários

Num pequeno zapping entre os meus quatro canais, tropecei num programa apresentado pelo Herman José, em que pelo que percebi, se avalia a parecença física e vocal dos concorrentes com determinados “artistas”. Não cheguei a ouvir ninguém cantar. Vi apenas uns pais orgulhosos por lhes dizerem o filho é igualzinho ao João Pedro Pais e mudei de canal...

15 de Junho de 2009

Voar para longe

14 de Junho de 2009

Relatividades

Vão ali a Alcoentre visitar os maridos e os filhos à prisão, como eu vou a Leiria visitar a minha família, à casa onde nasci. Entram em grupo no autocarro, animadas. Falam alto, riem. Devem fazê-lo todos os Sábados, mais ou menos a esta hora. Faz parte da normalidade das suas vidas. Não há drama nem pesar nos seus olhares, não há tristeza nas suas mãos, não há frustrações a pairar-lhes por cima da cabeça. Vivem assim porque não lhes foi dado viver de outra maneira. Ou porque não o procuraram. Aceitam a vida que têm, um dia atrás do outro. Concerteza que não farão grande coisa para mudar o mundo, mas eu, que talvez até pudesse mudar alguma coisa, também não o faço. E no entanto, quanta tristeza me não acompanha os gestos, quantos suspiros se me não sufocam na garganta.