9 de Novembro de 2009
Cântico Negro
21 de Outubro de 2009
11 de Outubro de 2009
8 de Outubro de 2009
Lugar lugares
Herberto Helder, Os Passos Em Volta
3 de Outubro de 2009
Wouldn't we all, someday?
16 de Setembro de 2009
10 de Setembro de 2009
Adulteza
Lembro-me de gostar, desde muito criança, do cheiro a perfumes fortes misturado com tabaco. Sobretudo nas mulheres. Também adorava o cheiro dos cigarros acesos dentro do carro, do fumo a viajar até ao banco de trás onde eu o inalava com prazer. Acho que o prazer que tirava destes cheiros tinha a ver com as fantasias que construía em volta deles, com o que me transmitiam de luxúria, de algo proibido que as aparências e os comportamentos dos adultos tentavam disfarçar na minha presença, mas que chegava até mim e me fazia desejar ser assim quando crescesse, uma mulher a cheirar a YSL e a tabaco. Agora que cheiro assim, fico cheia de inveja das miúdas que cheiram a champô e óleo Johnson’s. Acho que têm um cheiro lavadinho, uma coisa pura e sem falhas. Pressuponho-lhes as pernas sem celulite, os seios firmes e orgulhosos, os cabelos fartos e brilhantes e sinto os meus trinta e um anos a pesar-me. Mas conforta-me a minha sabedoria, aquilo a que chamamos maturidade e que os ingleses chamam, se traduzirmos à letra, adulteza e que é uma palavra magnífica para designar o que mais valorizo hoje nas pessoas que me rodeiam. Maturidade soa a coisa que está no ponto mas que já não se aguenta por muito mais tempo. Adulteza é coisa sólida, firme, coisa construída a pulso para gerações futuras apreciarem. (Cada vez gosto mais da língua inglesa.)
6 de Setembro de 2009
Regresso (lentamente)
2 de Agosto de 2009
Consider The Birds
A terra tem muitas cores. Esta que agora vejo é vermelha, pontilhada nas encostas pelo verde das copas das árvores. Erguendo os olhos, esmaga-me o azul profundo do céu. Ao longe, no horizonte, o mar ainda ondula, azul escuro, a acenar-me adeus, orlado do mesmo branco dos dois ou três flocos de nuvens que pairam sobre a terra. Os meus olhos podem ver tudo isto, o que só pode ser uma bênção. Como são abençoados os pássaros que rasgam o horizonte à minha frente, entre o mar e a terra, espalhando vida pelo ar. Embalam-me os acordes de uma guitarra inspirada por Deus. A Sua graça não podia deixar de me acompanhar agora. Gostava que pudesse acompanhar-me sempre, para eu não voltar a esquecer-me de que estar vivo é esse maior dos acasos e que esse instante irrepetível tem de ser lembrado, valorizado e agradecido, todos os instantes, de forma natural e pura, como vi ontem nos olhos de um pescador. É preciso ter-se a certeza. Sempre. A salvação está mesmo aqui e agora. Não se pode esperar nada do tempo que há-de vir, nem de quem virá com o tempo. Não se pode pedir demissão disto tudo: do céu, do vento, da terra, do mar, dos pássaros que espalham vida pelo ar.
“Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
(Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso.
Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”
Bíblia, Mateus 6:26

