9 de junho de 2011
16 de maio de 2011
Pó no chão
Pelo soalho escuro caminho descalça. Pó, cotão, pêlo de gato, migalhas, tudo se me cola aos pés. O dia a dia da casa cola-se-me aos pés, como se os restos da pele que vai morrendo, espalhados pela casa, pudessem ir-se acumulando em camadas até formar outra vida, outro corpo igual ao meu com quem partilhar os dias e as noites. O sol está forte lá fora, mas a cortina amarela transforma a luz que entra na sala numa fotografia antiga, onde os objectos parecem suspensos, imortais, onde até eu me sinto perder substância. Sento-me, acendo um cigarro, concentro-me no fumo que entra espesso e sai rarefeito do meu corpo. Pouca coisa faz sentido na minha cabeça hoje e respirar é um maravilhoso e salvador mecanismo que me permite não morrer, mesmo quando me esqueço de ser. Mesmo quando o meu corpo não sou eu e a minha identidade se perde na confusão da ansiedade e da tristeza. A solidão é um porto de abrigo. A solidão é um buraco negro que eu carrego desde que me lembro, é o monstro que eu alimento com carinho porque já não sei viver sem ele. Como uma criança fechada numa cave desiste de tentar fugir, mesmo sofrendo todos os dias. Seremos nós assim tão caninos e cobardes? E os que supostamente são heróis e põem a sua vida em risco, não o fazem também porque não têm esperança em mais nada, ou por fanatismo? Porque onde é que tudo começa e recomeça? As perguntas nestes dias são sempre mais que muitas. As respostas demoram sempre muitos dias e muitas lágrimas a chegar. Muitas insónias, muitos cigarros, muitas páginas em branco... Tenho de aspirar o chão da sala. Vou ver o que está a dar na televisão.

Fotografia - W. Eggleston
2 de março de 2011
26 de fevereiro de 2011
Eu fico com o que não está escrito
Esta noite sonhei que estava numa sala de jantar cheia de pessoas, sentadas a comer numa grande mesa. O ambiente era festivo mas eu sentia alguma estranheza em relação a todas as pessoas, como se tivesse acabado de chegar de uma viagem de muitos anos. Uma mulher alta como uma deusa, morena e com grandes olhos verdes levantou-se da cabeceira da mesa e veio abraçar-me. Perguntou-me então porque é que eu amo tanto a natureza, porque é que me entusiasmo tanto com pequenos detalhes nas conchas da praia e nas sementes que caem das árvores, com os animais todos, dos grandes mamíferos aos pequenos insectos, com a luz do sol ou o azul do céu. Respondi-lhe que é assim porque para mim a natureza é Deus e assim O posso amar em todas as coisas, pequenas e grandes, que me rodeiam. Ela abriu as mãos, cobriu-me o rosto e disse-me que ficava muito feliz por saber que eu tinha percebido isso, que é assim mesmo.
“-Ein Sof? – pergunta o frade, aludindo ao conceito cabalístico de um Deus incognoscível que não possui quaisquer atributos reconhecíveis. E vendo o meu assentimento, continua: - É pouco o conforto de um Deus que está para além de todas as coisas.
- Ah, conforto... Para isso, meu caro amigo, o que preciso é de uma mulher que se deite à noite comigo e filhos para abraçar, não um Deus. Pode ficar com o Senhor escrito nas páginas do Velho e do Novo Testamento para si. Eu fico com o que não está escrito.”
- Ah, conforto... Para isso, meu caro amigo, o que preciso é de uma mulher que se deite à noite comigo e filhos para abraçar, não um Deus. Pode ficar com o Senhor escrito nas páginas do Velho e do Novo Testamento para si. Eu fico com o que não está escrito.”
O último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler
20 de fevereiro de 2011
16 de fevereiro de 2011
1 de fevereiro de 2011
28 de janeiro de 2011
Alguns balanços (hallelujahs e mojitos)
2010 teve muitas coisas boas. Entre outras, salvação em tempos duros. A vida dá muitas voltas e há braços que sabemos que estão sempre lá.
2 de janeiro de 2011
he's a working man
none can stay his hand
his are the three
faces of time
we keep walkin
and thinkin things to talk about
down on our prayer bones in line
go into the lords house
go in a mile
the world will bow
the knees will be broken for those who don't know how
he delights not in the streghth of horses
he takes no pleasure not in the cleverness of men
28 de dezembro de 2010
Esforço optimista
Sou uma barata de pernas para o ar a espernar, a espernear, como o outro. Se fosse uma borboleta queimava as asas numa lâmpada qualquer. Mas ficar para aqui assim é morrer de fome e de frio e cansar-me um dia de espernear e ir-me embora sem ter visto a luz de perto, nem que por um segundo. Bom era ser cavalo a correr na pradaria, musculado, forte. Mas dizem que se houver um desastre nuclear os cavalos morrem e as baratas não. Não se pode ter tudo. Eu nunca fui muito de correr, mas vou-me aguentando à bronca. Se espernear muito, com muita força, pode ser que me endireite. Ou que apareça alguém que me dê uma mãozinha. É preciso ter esperança.
Ladainha
Ai quem me dera não viver fora do tempo, entre o passado e o futuro, entre as nostalgias e os sonhos. Quem me dera que os meus pés corressem na estrada, na terra, na erva, na areia, na neve, na lama do chão. Quem me dera ser alegre e passar mais tempo a sorrir e menos tempo a cerrar os dentes e os punhos. Quem me dera que alguém pudesse ensinar-me a ser criança outra vez para ter tempo para brincar mais e pensar menos e por isso ser menos velha por dentro. Quem me dera que a vida me fosse mais leve. Quem me dera. Quem?
23 de novembro de 2010
Entre a espada e a parede
A hora mudou para o cedo se fazer tarde. É o tempo das castanhas no lume, que o meu nariz persegue na rua com prazer. A chuva molha-me as botas a caminho do trabalho, mas o que eu queria mesmo era chapinhar nas poças e ficar a olhar para as gotas que caem, com a boca aberta, à espera de matar uma sede qualquer. O verão passou tão depressa, tão depressa que eu já não sei ler nem escrever. Há outra vez uns braços que vêm mas que em breve partirão e eu para aqui sempre a olhar para o meu próprio ventre e a pensar de onde veio esta cicatriz redondinha e como dar-lhe a volta por fora sem torcer o pescoço. Quero saber o sabor dos dias e das noites sem sobressaltos como quando era só eu e a chuva. Tenho saudades e nem sei de quê.
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