26 de abril de 2009

Uma joaninha holandesa

Em jeito de dedicatória a duas Joaninhas muito importantes na minha vida.

25 de abril de 2009

25 de Abril

Ainda nos falta muita liberdade dentro da cabeça.

24 de abril de 2009

Queda de um mito (a cores)

A Alemanha é um país com dias de muito calor e as pessoas são simpáticas.














4 de abril de 2009

O Caçador











27 de março de 2009

Obsessivo-compulsividades

Toda a vida me lembro de fazer listas intermináveis das tarefas todas que acho que tenho de cumprir num determinado período de tempo. Lavar a loiça, estender a roupa, cortar as unhas, fazer depilação, ir ao supermercado, ir à lavandaria, levar o gato ao veterinário, fazer sopa, sacudir, aspirar, arrumar, regar as plantas, mandar três mails a três pessoas com três assuntos diferentes, fazer uma transferência bancária, carregar o telemóvel, pagar a luz, a água e o gás, entregar o filme de ontem no clube de vídeo, ir à farmácia, ao sapateiro, comprar cigarros, gravar um cd, levar o lixo e as garrafas para o vidrão e marcar a consulta no dentista. Chego ao cúmulo de estabelecer um tempo para cada tarefa. Não me lembro de alguma vez ter cumprido algum. Geralmente, quando faço listas de coisas para fazer, não faço nada.

18 de março de 2009

2 de março de 2009

Os livros dos outros

Sempre que ando de transportes públicos e vejo alguém a ler um livro faço os possíveis para tentar ver que livro está a pessoa a ler. Quase sempre são os livros da moda, os best sellers ou, à moda do Alexandre O’Neill, as bestas céleres. Há uns tempos era o Código da Vinci e outros derivados do Dan Brown, depois veio a febre do Equador do Sousa Tavares, agora são os romances pseudo históricos do José Rodrigues dos Santos e outros sucessos de prateleira. Nunca ninguém me surpreendeu com um William Faulkner ou uma Marguerite Yourcenar ou um Samuel Beckett ou um Herberto Helder ou um Philip Roth... Onde andarão as pessoas que lêem esses livros? Vão todas de carro para o trabalho? Ficam em casa a devorá-los sem conseguir parar para saír? Gostam tanto deles que não os metem na mala para não dobrar os cantos nem sujar a capa? Há sempre aquelas capinhas de papel de fotocópia improvisadas que algumas pessoas colocam para não sujar o livro ou para não mostrarem o que andam a ler. Esses ainda me aguçam mais a curiosidade! Estico o pescoço e semicerro os olhos no esforço míope de tentar ler as letrinhas do topo da página com o nome do livro ou do escritor. Às vezes as pessoas apercebem-se que estou a espreitar-lhes por cima dos ombros e mostram-se incomodadas. É chato, é verdade. Mas não resisto. E não me parece que seja motivo suficiente para matar o gato, por isso, vou espreitando.

24 de fevereiro de 2009

«Como é que a novidade chega ao mundo?
Como é que nasce? De que fusões, translações, conjunções é feita?
Como sobrevive, sendo extrema e perigosa como é? Que compromissos, que acordos, que traições a sua natureza secreta é obrigada a fazer para salvar a tripulação naufragada, o anjo exterminador, a guilhotina?
Será o nascimento sempre uma queda?
Têm asas os anjos? Sabem os homens voar?»

Salman Rushdie
Versículos Satânicos

10 de fevereiro de 2009

É possível sentir a luz do Sol em dias de chuva

Here comes the sun, here comes the sun, and I say its all right

Little darling, its been a long cold lonely winter little darling, it feels like years since its been here

here comes the sun, here comes the sun and I say its all right

Little darling, the smiles returning to the faces little darling, it seems like years since its been here

here comes the sun, here comes the sun and I say its all right

Sun, sun, sun, here it comes...

Little darling, I feel that ice is slowly melting little darling, it seems like years since its been clear

here comes the sun, here comes the sun, and I say its all right


Its all right

Nina Simone

28 de janeiro de 2009

Pequena homenagem a um grande homem

No meio das literaturas todas que consumo há anos, sempre a tentar preencher as lacunas dos clássicos e, ao mesmo tempo, manter a actualidade, tropecei, há cerca de um ano, no senhor John Updike. Li dois livros dele quase de seguida e ambos me marcaram, me mudaram, até, como só as coisas muito fortes conseguem. Passei a admirar muito o homem e a sua obra. Hoje olhei para a capa do Público e vi a sua fotografia com duas datas... Gostava de acreditar no céu e desejar que a alma dele fosse para lá.


















«A cidade estende-se desde filas de casas de bonecas ao lado do parque e através de um largo e esbatido ventre da cor de um vaso de flores vermelho, pontilhado de telhados escuros e carros cintilantes e termina com um tom rosado na bruma suspensa sobre o rio distante. Os reservatórios de gás cintilam por entre o fumo. Os arredores parecem cicatrizes. Mas a cidade é enorme no centro e ele abre a boca como se quisesse forçar os lábios da alma a receberem neles o gosto da verdade, como se a verdade fosse um segredo diluído numa proporção tão baixa que apenas a imensidade lhe pudesse dar um sabor perceptível. E é na sua boca que o ar seca.
O seu dia foi perturbado por Deus: Ruth troçou, Eccles pestanejou... Porque te ensinam tais coisas se ninguém acredita nelas? Daqui parece simples que, se existir um chão, tem de existir um tecto e o espaço verdadeiro em que vivemos é o espaço superior. Alguém está a morrer. Nesta grande extensão de tijolo, há alguém moribundo. Aquele pensamento chega-lhe sabe lá de onde: simples percentagens. Alguém nalguma casa daquelas ruas morre, se não for naquele minuto será no próximo, e Harry crê que o coração dessa rosa abatida e prostrada se encontra naquele peito subitamente petrificado. Procura o lugar com os olhos, esperando talvez ver a alma de um velho enegrecida por um cancro ascender através do azul como uma marioneta. Aguça os ouvidos para escutar o ruído da libertação quando a ilusão avermelhada aos seus pés abandonar esta realidade. O silêncio atordoa-o. Filas de carros que se movem lentamente sem fazer ruído; um ponto sai de uma porta. Que está ele aqui a fazer no meio do ar? Porque não está em casa? O terror invade-o.»

Corre, Coelho

John Updike

11 de janeiro de 2009

Sol de Inverno

Esta semana o frio chegou-se a Lisboa com unhas e dentes. Saí de casa um destes dias de manhã (atrasada como sempre), com os meus fones nas orelhas, pronta para enfrentar o dia. Estava sol e havia gelo nos passeios e pessoas a escorregar em poças de água quebradiças. Quando saí do autocarro e comecei a minha caminhada, começou a entrar-me esta música na cabeça. Embora o Tom Barman diga que o Verão chegou, o Inverno pareceu-me mais certo e mais belo a ouvi-lo cantar. E depois esta música é daquelas que me fazem estugar ainda mais o passo, cheia de vibrações boas a romper-me os músculos, metida num videoclip filmado de dentro para fora. Ainda por cima a música é banda sonora de um filme em que o mesmo senhor, o que me canta aos ouvidos, passa o tempo a filmar pessoas a andar de um lado para o outro na cidade. Entrei no filme e, para onde quer que o vento soprasse, senti-me terrivelmente feliz.


1 de janeiro de 2009

Aprender com os outros

Andei durante anos a festejar as passagens de ano porque sim, porque é suposto haver aquela coisa da festa, dos amigos, do champanhe, das batatas fritas de pacote, dos copos até às tantas, da música e das ressacas no primeiro de Janeiro. Durante todos estes anos cumpri com as tradições quase todas (não me façam comer passas!), acompanhei as contagens do relógio, saltei à meia noite, distribuí beijos e abraços, desejei e recebi votos e mais votos de bom ano novo, fiz muitos brindes e dancei e ri e chorei. Esta festa tem esta duplicidade de ser uma coisa em grande se olharmos para o nosso ano e de ser uma coisa banal e repetida se olharmos para a nossa vida. Mas esta festa só é uma coisa em grande por ser banal e repetida, por ter esse potencial de ser uma noite como outra qualquer. Talvez só tenha tomado consciência disto ontem. E foi preciso fazer uma tarde de limão merengada! Obrigada princesa.

28 de dezembro de 2008

Gato fantasma


23 de dezembro de 2008

No princípio, era o Verbo

As coisas só se nos revelam depois de nomeadas, ditas. Podemos andar todos a brincar ao gato e ao rato, a lançar sorrisos e lágrimas uns aos outros, sem nos amarmos nem nos odiarmos, até ao dia em que alguém diz “Estou aqui e sou isto e gosto de ti” ou “Estou aqui e odeio-te, por isso deixa-me em paz”. A partir desse dia, a amizade, o amor, o ódio passam a existir. E sempre que nos cruzamos com os olhos do outro sabemos o que lá está, à espera de uma oportunidade para nos atravessar. Começamos a ter expectativas, a cobrar, a ter desilusões…
Eu sou daquele tipo de pessoas que diz, diz, incansavelmente. Tendo a não acreditar no que não sei, no indizível. Esta ânsia de traduzir tudo, esta ilusão de poder que me dão os nomes das coisas, custa-me muitas desventuras. Continuo, passados trinta anos, a não saber o que é melhor: traduzo tudo e tenho de viver com o peso dos nomes das coisas, ou aceito que há coisas que não se dizem e devem ser deixadas no silêncio primordial?
Há magia nas coisas ditas. Mas a magia pode às vezes ser negra e até fatal, irreversível. Para as maçãs envenenadas geralmente há um antídoto, mas para os abracadabras não.
Preferia que algumas coisas não fossem ditas, para não terem de existir. Preferia ficar pelos sorrisos e pelas lágrimas a serem lançados e que isto fosse tudo assim mais leve e transparente. Eu, que sou amante das palavras, sei que às vezes elas podem quebrar o equilíbrio frágil de um silêncio natural e puro para criarem um turbilhão de frémitos arrebatados ou de equívocos e desconfortos. Mas escuto, digo, leio, escrevo. É a minha condição, a minha natureza. Bênção ou maldição, faz parte do que sou e da minha forma de estar no mundo e tenho de viver com as consequências dos meus verbos. É assim que passo agora os dias a pensar em coisas ditas e no que posso fazer para me aproximar o mais possível desse instante em que tudo principiou, desse instante em que não havia nomes para as coisas e podíamos fazer de conta que elas não estavam lá.

18 de dezembro de 2008

Gémeos

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.”

Fernando Pessoa,
in Livro do Desassossego