25 de abril de 2010

25 de Abril

Infelizmente os braços erguidos são cada vez menos, os cravos custam um euro cada, e a malta com o calor tem mais vontade de se juntar para beber cervejas... Será que um dia nos vamos todos esquecer de Abril? E quando morrer a geração destes braços?

13 de abril de 2010

Crise de identidade

Pergunto-me se é possível ser-se cristão e trabalhar num banco. Se é possível ser-se de esquerda e trabalhar num banco. Se é possível ser-se honesto e trabalhar num banco. Se é possível ser-se inteligente e trabalhar num banco. Se é possível ser-se feliz e trabalhar num banco. E respondo-me que só é, se não se pretender ser pelo menos duas destas coisas em simultâneo.

Lisbondres

Hoje no metro, na estação do Marquês, ouvi pela primeira vez a voz de uma senhora repetir "atenção à distância entre o cais e o comboio", que é como quem diz "mind the gap" em português. Depois às duas da tarde ia morrendo assada nos Restauradores e às cinco já chovia e fazia frio pela cidade toda. Pareceu-me que tinha trazido um bocado de Londres agarrado às solas dos sapatos.

Londres

Passei dez dias das últimas semanas em Londres e já pensei que devia ter escrito algo maravilhoso sobre o assunto para pôr aqui. Como se fosse uma obrigação. Adorei verdadeiramente a cidade. Tenho trinta e um anos, nunca tinha ido a Londres e cheguei com a alma muito cheia de coisas boas. Mas coisas que me parecem tão boas que só alguém tão bom como elas poderia escrever algo decente sobre o assunto. Além disso a Primavera deprime-me e baralha-me. Penso em milhões de coisas ao mesmo tempo e sonho acordada mas parece tudo muito pouco coerente, tudo fragmentado, estilhaços criativos que não consigo colar para fazer nada. E depois há a depressão sazonal e a tensão pré menstrual e o regresso ao trabalho (que saudades do regresso às aulas...) e a casa para arrumar e mais uma dúzia de boas desculpas para não ter de me obrigar a mais nada. Muito menos a escrever. Assim, para não ficar com a consciência totalmente pesada, posso simplesmente dizer que, entre muitas outras coisas de que gostei muito, vi isto, e isto e isto e isto e ainda isto e isto e podia continuar mas fico-me com apenas mais isto. Valeu tudo muito, muito a pena. E cresci.

8 de março de 2010

Curiosamente, até estou bem disposta



Instincts that can still betray us
A journey that leads to the sun
Soulless and bent on destruction
A struggle between right and wrong
You take my place in the showdown
I'll observe with a pitiful eye
I'll humbly ask for forgiveness
A request well beyond you and I

Heart and soul, one will burn
Heart and soul, one will burn

An abyss that laughs at creation
A circus complete with all fools
Foundations that lasted the ages
Then ripped apart at their rootsBeyond all this good is the terror
The grip of a mercenary hand
When savagery turns all good reason
There's no turning back, no last stand

Heart and soul, one will burn
Heart and soul, one will burn

Existence well what does it matter?
I exist on the best terms I can
The past is now part of my future
The present is well out of hand
The present is well out of hand

Heart and soul, one will burn
Heart and soul, one will burn

16 de fevereiro de 2010

Reciprocidade

Não me parece hoje haver maior ingratidão que a de não receber o amor que se nos oferece. Porque não se quer, porque não se sabe ou porque não se quer saber. Sempre gostei de dar. Dar de mim aos outros. Qualquer coisa que se dê, seja um presente ou apenas um gesto ou um sorriso, leva-nos para fora de nós e assim nos cumprimos como seres humanos. Isso é amar os os outros e amarmo-nos a nós próprios. Quando o que damos se esfuma no ar, esfumamo-nos também um pouco. Mas não se pode desistir. Se soubermos dar e receber, saberemos tirar o melhor de nós e dos outros. O amor, como o ódio, espalha-se e reproduz-se. E também se pode aprender, se se quiser. Eu sempre gostei de dar. Às vezes as pessoas não recebem. O melhor é virarmo-nos para os que estão interessados. Investimos nessas pessoas e elas investirão noutras. Estas coisas muito simples demoram muito tempo a aprender. Dentro de mim, perdoo o que antes me era impossível perdoar.

11 de fevereiro de 2010

Civilização

Hoje, numa rua central de Lisboa, capital de Portugal, vi uma senhora muito distinta meter um guarda-chuva partido no ecoponto amarelo.

29 de janeiro de 2010

26 de janeiro de 2010

Paisagens das entranhas

















Mark Rothko, 1949, 1968, 1969

24 de janeiro de 2010

Precisamente isto #2


















Retirado daqui.

16 de janeiro de 2010

10 de janeiro de 2010

Precisamente isto

"Cada ves más, quedarme solo es volver a encontrarme con alguien que quizá siempre me acompaña, pero que únicamente aparece, reaparece, cuando no hay absolutamente nadie."

Ramón Gaya, Diario de Un Pintor

8 de janeiro de 2010

2010

Dois mil e dez. Dois zero um zero. Só hoje é que olhei para a data com atenção. Só hoje é que percebi que mudou o número e mudou o ano e também mudou a década.

6 de janeiro de 2010

Ressaca (do Português Suave)

Cêgripe, lenço de papel, chá quentinho, casaco de lã, xarope para a tosse, antibiótico, lenço de papel, mais chá quentinho, aquecedor, edredão de penas, anti-inflamatório, termómetro, lenço de papel, olhos a arder, garganta a doer, pastilhas, rebuçados, colheres de mel, tosse, tosse, tosse, quero fumar um cigarro... Aliás, quero fumar um maço de tabaco INTEIRO!

5 de janeiro de 2010

Tecituras




Há já algum tempo que me apetecia tricotar. Gostava de fazer um cachecol colorido, daqueles muito básicos, lã grossa, risca verde, risca amarela, risca vermelha, risca azul. Quando numa ida a uma loja de chineses vi meadas de lã alinhadinhas nas prateleiras a meia dúzia de cêntimos, fiquei ainda com mais vontade. No Natal, entre outras coisas, aproveitei para pedir à minha mãe que me relembrasse umas quantas coisas básicas e me emprestasse agulhas de tricotar. Das grossas! E desde então estou viciada no tricot e no cachecol que vejo crescer-me dos novelos e dos dedos com entusiasmo. Parece que tenho um jogo novo qualquer. Como quando fiz um puzzle de três mil peças e todos os dias pensava em vir para casa a correr para fazer mais um bocadinho. Mas como os jogos que viciam, a coisa entrou-me num destes dias pelo sono adentro quando estava ainda naquela vigília entorpecida do adormecer em que as coisas são sonhos e são coisas e se mistura tudo. Comecei a pensar num texto para escrever e estava a ditá-lo a mim própria para não me esquecer dele e de repente já estava a escrevê-lo aqui mas escrevê-lo era tricotá-lo nas minhas lãs coloridas e eu via o cachecol de ideias a crescer no ecrã do computador à medida que ia escrevendo. Lembrei-me de quando era pequena, jogava horas e horas de tetris e quando ia deitar-me fechava os olhos e adormecia a ver peças coloridas a cairem cada vez mais depressa pelo meu sono abaixo.