19 de novembro de 2009

Wovenhand em Salzburgo!!!!!!!


Nem acredito que estou quase a ver este senhor ao vivo e a cores outra vez.

Erlend Oye

Nunca pensei que podia achar tanta piada a um tipo tão teen-ager tão cenoura e tão caixa de óculos.



17 de novembro de 2009

9 de novembro de 2009

Cântico Negro

Tudo à minha volta padece de males de amor, tudo se ressente de discussões, desilusões, separações, saudades, ausências... Reciclamos. Revivemos. Reinventamos paixões. Sempre à espera de encontrar uma coisa qualquer, a tal da metade cujo sonho nos venderam ou, na falta dela, alguém que seja o mais parecido possível (pode ser que ninguém note a diferença). E para aqui vamos fingindo que somos modernos e independentes, que podemos ter relações umas a seguir às outras e seguir em frente sem sofrer nenhum arranhão. Que podemos continuar todos a ser amigos e a beber copos à esquina como se os sentimentos fossem e viessem ao ritmo das estações do ano, repetidos, idênticos, sem deixar marcas para o ano seguinte. Ironicamente, até as estações do ano agora deitam abaixo os castelos, porque já não há nuvens, só calor e secura fora de época. As sementes não germinam debaixo da terra. Secam e perdem-se para sempre. E eu vou-me apaixonando por coisas, figuras, músicas, filmes, actores e actrizes, músicos e cantores, pessoas que invento, retalhos deste e daquele e de mim para me manter viva e não enlouquecer. Nas histórias que me contavam, as mulheres casavam virgens e era para toda a vida. O almoço e o jantar estavam na mesa a horas certas, a roupa cheirava sempre bem e suportavam-se coisas com um estoicismo quase genético, sem questionar o sentido daquilo tudo. Cresci assim, rodeada de coisas antigas, no meio de um caos sólido e austero contra o qual comecei a revoltar-me muito cedo. Tive sempre vontade de ser livre e independente, acima de qualquer outra coisa. E sou. Livre. Independente. É muito fácil saber-se o que não se quer, difícil é o resto.

21 de outubro de 2009

Outono a sério pelas ruas da cidade

Mais um regresso.

11 de outubro de 2009

E outras vizinhanças


Mudanças


8 de outubro de 2009

Lugar lugares

"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo — diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas. Temos medo. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... Claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. Um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E o outro, o outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de março. Uma partida. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais triste que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia agarrar num copo: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois, e depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora."

Herberto Helder, Os Passos Em Volta

3 de outubro de 2009

HURT

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Wouldn't we all, someday?

“I used to be a mailboy in the Justice Department in Washington”, he said. “I felt I was becoming transparent. I had the feeling that after I ate dinner, people could see the food in my stomach. That’s just one of the things that was happening to me. I began to fear that chunks of government buildings would dislodge and fall on the top of me. But I think the worst thing of all was when I was walking on a crowded street. You know how people jockey back and forth, the fast walkers trying to overtake the slow walkers. There’s always a lot of shoving and the fast walkers are always stepping on the slow ones and knocking their shoes off. I was a fast walker. I was always hurrying even when I was just going for an aimless stroll, and I used to get annoyed when slow walkers got in my way. One day I was trying to get around an old man who kept drifting toward the curb and blocking my path and suddenly I found myself shouting at him in my own head, shouting inwardly and silently: LOOK OUT! LOOK OUT! I never actually spoke the words. I just shouted them mentally. I began to do that all the time. LOOK OUT, I would say to people. MOVE! MOVE! And I could see the words in my head in big block letters like a cartoon. Then one day a woman slowed down suddenly and I almost crashed into her. I found myself shouting a new word in my head: DIE! If I had said it aloud she probably would have died. It was really a hideous inner scream and I could see the word in my head in red letters with a big exclamation point. I began to realize I was abnormal. I was a person who walked along the street mentally shouting DIE at innocent people. After several months of this I tried to make a conscious effort to stop shouting the word. But it was too late. It just popped into my head automatically. DIE! DIE! I’ll tell you the kind of person I was. I was the kind of person who’s always falling in love with the wives of his best friends.”
“Have you stopped shouting DIE?” Sullivan said.
“I stopped shouting it the day I quit my job and I haven’t shouted it since. I haven’t shouted anything since[…]”.

Don DeLillo, Americana

16 de setembro de 2009

10 de setembro de 2009

Adulteza

Lembro-me de gostar, desde muito criança, do cheiro a perfumes fortes misturado com tabaco. Sobretudo nas mulheres. Também adorava o cheiro dos cigarros acesos dentro do carro, do fumo a viajar até ao banco de trás onde eu o inalava com prazer. Acho que o prazer que tirava destes cheiros tinha a ver com as fantasias que construía em volta deles, com o que me transmitiam de luxúria, de algo proibido que as aparências e os comportamentos dos adultos tentavam disfarçar na minha presença, mas que chegava até mim e me fazia desejar ser assim quando crescesse, uma mulher a cheirar a YSL e a tabaco. Agora que cheiro assim, fico cheia de inveja das miúdas que cheiram a champô e óleo Johnson’s. Acho que têm um cheiro lavadinho, uma coisa pura e sem falhas. Pressuponho-lhes as pernas sem celulite, os seios firmes e orgulhosos, os cabelos fartos e brilhantes e sinto os meus trinta e um anos a pesar-me. Mas conforta-me a minha sabedoria, aquilo a que chamamos maturidade e que os ingleses chamam, se traduzirmos à letra, adulteza e que é uma palavra magnífica para designar o que mais valorizo hoje nas pessoas que me rodeiam. Maturidade soa a coisa que está no ponto mas que já não se aguenta por muito mais tempo. Adulteza é coisa sólida, firme, coisa construída a pulso para gerações futuras apreciarem. (Cada vez gosto mais da língua inglesa.)

6 de setembro de 2009

Regresso (lentamente)

As coisas todas que trago comigo são grandes e crescem, ganham peso, fazem uma sombra cada vez maior a cada dia que passa. E a minha pele continua a tornar-se cada vez mais fina, os órgãos já quase à vista, a alma despida, nuazinha em pêlo, os sentidos alerta, a fazer sentinela, a toparem cada folha a mexer-se como um guerrilheiro na selva, rodeado de ameaças gigantes e desconhecidas. À procura da justificação, da razão deste estar-se num sítio a sobreviver, a olhar por cima do ombro. À procura de saber o que vale a pena, de saber se ter medo vale a pena, sabendo que não se pode simplesmente largar tudo e mudar de lugar. É assim. Foi assim. Aprende-se a caminhar sob as sombras, a entrever a luz como uma bênção, a dar-lhe valor, cada dia de sol uma dádiva. Aprende-se a carregar os pesos que vão crescendo (ainda falta aprender o que fazer com eles). Está-se sempre a caminhar, mas sempre à procura e, suspeito, na direcção errada. Já ninguém se lembra do cheiro nem do sabor da terra. Quanto mais pensamos e mais aprendemos mais nos esquecemos do que é verdadeiramente importante.

2 de agosto de 2009

Consider The Birds

para a Joana e para a Tânia

A terra tem muitas cores. Esta que agora vejo é vermelha, pontilhada nas encostas pelo verde das copas das árvores. Erguendo os olhos, esmaga-me o azul profundo do céu. Ao longe, no horizonte, o mar ainda ondula, azul escuro, a acenar-me adeus, orlado do mesmo branco dos dois ou três flocos de nuvens que pairam sobre a terra. Os meus olhos podem ver tudo isto, o que só pode ser uma bênção. Como são abençoados os pássaros que rasgam o horizonte à minha frente, entre o mar e a terra, espalhando vida pelo ar. Embalam-me os acordes de uma guitarra inspirada por Deus. A Sua graça não podia deixar de me acompanhar agora. Gostava que pudesse acompanhar-me sempre, para eu não voltar a esquecer-me de que estar vivo é esse maior dos acasos e que esse instante irrepetível tem de ser lembrado, valorizado e agradecido, todos os instantes, de forma natural e pura, como vi ontem nos olhos de um pescador. É preciso ter-se a certeza. Sempre. A salvação está mesmo aqui e agora. Não se pode esperar nada do tempo que há-de vir, nem de quem virá com o tempo. Não se pode pedir demissão disto tudo: do céu, do vento, da terra, do mar, dos pássaros que espalham vida pelo ar.
É preciso querer voltar a ver uma seara dourada pelo Sol a ondular com o vento, um pomar de árvores verdes carregadas de frutos, o azul do céu e do mar, o vermelho da terra, um sorriso sincero, um gato a espreguiçar-se, a pureza de um olhar. É preciso querer voltar a cheirar a terra molhada, o pão quente, o mar, a urze, o café acabado de fazer. É preciso querer voltar a saborear um fruto, verde ou maduro, um copo de vinho, uns lábios. É preciso querer voltar a sentir a areia entre as mãos, uma almofada macia, a casca de uma árvore, um abraço apertado, o vento na cara. É preciso querer voltar a ouvir os pássaros, o mar, o vento, as vozes de quem amamos e de outros que venham, os acordes de todas as músicas que falam connosco. É preciso acreditar. É preciso acreditar.

“Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
(Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso.
Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

Bíblia, Mateus 6:26

25 de julho de 2009

laud

"the morning comes
I've not yet closed my eyes
cold and bright as I need it
the sun does rise"