10 de fevereiro de 2009

É possível sentir a luz do Sol em dias de chuva

Here comes the sun, here comes the sun, and I say its all right

Little darling, its been a long cold lonely winter little darling, it feels like years since its been here

here comes the sun, here comes the sun and I say its all right

Little darling, the smiles returning to the faces little darling, it seems like years since its been here

here comes the sun, here comes the sun and I say its all right

Sun, sun, sun, here it comes...

Little darling, I feel that ice is slowly melting little darling, it seems like years since its been clear

here comes the sun, here comes the sun, and I say its all right


Its all right

Nina Simone

28 de janeiro de 2009

Pequena homenagem a um grande homem

No meio das literaturas todas que consumo há anos, sempre a tentar preencher as lacunas dos clássicos e, ao mesmo tempo, manter a actualidade, tropecei, há cerca de um ano, no senhor John Updike. Li dois livros dele quase de seguida e ambos me marcaram, me mudaram, até, como só as coisas muito fortes conseguem. Passei a admirar muito o homem e a sua obra. Hoje olhei para a capa do Público e vi a sua fotografia com duas datas... Gostava de acreditar no céu e desejar que a alma dele fosse para lá.


















«A cidade estende-se desde filas de casas de bonecas ao lado do parque e através de um largo e esbatido ventre da cor de um vaso de flores vermelho, pontilhado de telhados escuros e carros cintilantes e termina com um tom rosado na bruma suspensa sobre o rio distante. Os reservatórios de gás cintilam por entre o fumo. Os arredores parecem cicatrizes. Mas a cidade é enorme no centro e ele abre a boca como se quisesse forçar os lábios da alma a receberem neles o gosto da verdade, como se a verdade fosse um segredo diluído numa proporção tão baixa que apenas a imensidade lhe pudesse dar um sabor perceptível. E é na sua boca que o ar seca.
O seu dia foi perturbado por Deus: Ruth troçou, Eccles pestanejou... Porque te ensinam tais coisas se ninguém acredita nelas? Daqui parece simples que, se existir um chão, tem de existir um tecto e o espaço verdadeiro em que vivemos é o espaço superior. Alguém está a morrer. Nesta grande extensão de tijolo, há alguém moribundo. Aquele pensamento chega-lhe sabe lá de onde: simples percentagens. Alguém nalguma casa daquelas ruas morre, se não for naquele minuto será no próximo, e Harry crê que o coração dessa rosa abatida e prostrada se encontra naquele peito subitamente petrificado. Procura o lugar com os olhos, esperando talvez ver a alma de um velho enegrecida por um cancro ascender através do azul como uma marioneta. Aguça os ouvidos para escutar o ruído da libertação quando a ilusão avermelhada aos seus pés abandonar esta realidade. O silêncio atordoa-o. Filas de carros que se movem lentamente sem fazer ruído; um ponto sai de uma porta. Que está ele aqui a fazer no meio do ar? Porque não está em casa? O terror invade-o.»

Corre, Coelho

John Updike

11 de janeiro de 2009

Sol de Inverno

Esta semana o frio chegou-se a Lisboa com unhas e dentes. Saí de casa um destes dias de manhã (atrasada como sempre), com os meus fones nas orelhas, pronta para enfrentar o dia. Estava sol e havia gelo nos passeios e pessoas a escorregar em poças de água quebradiças. Quando saí do autocarro e comecei a minha caminhada, começou a entrar-me esta música na cabeça. Embora o Tom Barman diga que o Verão chegou, o Inverno pareceu-me mais certo e mais belo a ouvi-lo cantar. E depois esta música é daquelas que me fazem estugar ainda mais o passo, cheia de vibrações boas a romper-me os músculos, metida num videoclip filmado de dentro para fora. Ainda por cima a música é banda sonora de um filme em que o mesmo senhor, o que me canta aos ouvidos, passa o tempo a filmar pessoas a andar de um lado para o outro na cidade. Entrei no filme e, para onde quer que o vento soprasse, senti-me terrivelmente feliz.


1 de janeiro de 2009

Aprender com os outros

Andei durante anos a festejar as passagens de ano porque sim, porque é suposto haver aquela coisa da festa, dos amigos, do champanhe, das batatas fritas de pacote, dos copos até às tantas, da música e das ressacas no primeiro de Janeiro. Durante todos estes anos cumpri com as tradições quase todas (não me façam comer passas!), acompanhei as contagens do relógio, saltei à meia noite, distribuí beijos e abraços, desejei e recebi votos e mais votos de bom ano novo, fiz muitos brindes e dancei e ri e chorei. Esta festa tem esta duplicidade de ser uma coisa em grande se olharmos para o nosso ano e de ser uma coisa banal e repetida se olharmos para a nossa vida. Mas esta festa só é uma coisa em grande por ser banal e repetida, por ter esse potencial de ser uma noite como outra qualquer. Talvez só tenha tomado consciência disto ontem. E foi preciso fazer uma tarde de limão merengada! Obrigada princesa.

28 de dezembro de 2008

Gato fantasma


23 de dezembro de 2008

No princípio, era o Verbo

As coisas só se nos revelam depois de nomeadas, ditas. Podemos andar todos a brincar ao gato e ao rato, a lançar sorrisos e lágrimas uns aos outros, sem nos amarmos nem nos odiarmos, até ao dia em que alguém diz “Estou aqui e sou isto e gosto de ti” ou “Estou aqui e odeio-te, por isso deixa-me em paz”. A partir desse dia, a amizade, o amor, o ódio passam a existir. E sempre que nos cruzamos com os olhos do outro sabemos o que lá está, à espera de uma oportunidade para nos atravessar. Começamos a ter expectativas, a cobrar, a ter desilusões…
Eu sou daquele tipo de pessoas que diz, diz, incansavelmente. Tendo a não acreditar no que não sei, no indizível. Esta ânsia de traduzir tudo, esta ilusão de poder que me dão os nomes das coisas, custa-me muitas desventuras. Continuo, passados trinta anos, a não saber o que é melhor: traduzo tudo e tenho de viver com o peso dos nomes das coisas, ou aceito que há coisas que não se dizem e devem ser deixadas no silêncio primordial?
Há magia nas coisas ditas. Mas a magia pode às vezes ser negra e até fatal, irreversível. Para as maçãs envenenadas geralmente há um antídoto, mas para os abracadabras não.
Preferia que algumas coisas não fossem ditas, para não terem de existir. Preferia ficar pelos sorrisos e pelas lágrimas a serem lançados e que isto fosse tudo assim mais leve e transparente. Eu, que sou amante das palavras, sei que às vezes elas podem quebrar o equilíbrio frágil de um silêncio natural e puro para criarem um turbilhão de frémitos arrebatados ou de equívocos e desconfortos. Mas escuto, digo, leio, escrevo. É a minha condição, a minha natureza. Bênção ou maldição, faz parte do que sou e da minha forma de estar no mundo e tenho de viver com as consequências dos meus verbos. É assim que passo agora os dias a pensar em coisas ditas e no que posso fazer para me aproximar o mais possível desse instante em que tudo principiou, desse instante em que não havia nomes para as coisas e podíamos fazer de conta que elas não estavam lá.

18 de dezembro de 2008

Gémeos

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância – irmãos siameses que não estão pegados.”

Fernando Pessoa,
in Livro do Desassossego

4 de dezembro de 2008

Sonic Marilyn

24 de novembro de 2008

REAGIR

Hoje dormi três horas e acordei com a cabeça a rebentar e os ouvidos a apitar. Cumpri os meus rituais e saí para trabalhar. Na confusão do autocarro um homem empurrou o seu corpo contra o meu durante uma boa parte do percurso olhando-me com um ar nojento, sem que eu pudesse evitá-lo. Limitei-me a lançar-lhe num olhar toda a raiva que consegui. Passei o dia a arrastar-me como uma lesma deprimida no escritório e a rogar pragas a todas as pessoas que se cruzaram no meu caminho. Chega. Tenho de levantar o nariz e deixar de ter muita peninha de mim. A próxima vez que um homem nojento se colar a mim no autocarro vai ouvir das boas ou experimentar a firmeza do meu cotovelo. Ai vai, vai!

18 de novembro de 2008

Cabeça nas mãos



















Assim sofro pelo amor perdido

O desgosto fez-me perder metade do cabelo.


Vou pô-lo aos caracóis e arranjá-lo,
Pronta para o que der e vier...


in Poemas de Amor do Antigo Egipto

14 de novembro de 2008

8 de novembro de 2008

Not so funny games











Jogo um jogo para o qual não fui convidada e do qual não conheço as regras. Vou percebendo aos poucos o que fazer, quase por instinto, como se tacteasse um caminho na escuridão. O que mais me incomoda é jogar este jogo com alguém e sentir que é essa pessoa que dita as regras. Chateia-me porque sempre achei mais confortável fazer as coisas à minha maneira. Sabendo que se cair e esfolar um joelho ou partir a cabeça, não tenho de culpar ninguém. A responsabilidade da minha dor é exclusivamente minha.

Para algumas pessoas, culpar alguém pelas suas dores talvez possa minimizá-las um pouco. Isso é provavelmente instintivo, também, e não tem nenhum tipo de maldade subjacente. Tem antes um pouco de fé, pois se culparmos alguém ou alguma coisa isso faz de nós seres puros e inocentes, vítimas de um destino superior, do acaso ou simplesmente da nossa natureza e assim, desresponsabiliza-nos um pouco pelos nossos actos.

Eu prefiro acreditar que posso assumir a responsabilidade dos meus actos e das consequências negativas que eles possam ter. Prefiro pensar que dependem das minhas escolhas e decisões e que ser responsável por eles, bons ou maus, sem moralismos nem dramas, faz de mim um ser mais íntegro, mais coerente.

Sei que tudo isto pode não passar de uma ilusão que me imponho para acreditar que consigo coisas. Que consigo ir mais além neste curto espaço de tempo que temos para fazer um caminho. Sei que posso fazer-me acreditar no que eu quiser, quando eu quiser, mas que isso pode nunca mudar nada ou, simplesmente, não chegar a tempo.

Mas sei-o.

É por isso que me chateia jogar este jogo para o qual não fui convidada. Porque não sei o que é, como funciona, que hipóteses tenho de ganhar ou perder, e muito menos o quê.

26 de outubro de 2008

O pior nem foi ter decidido fazer este filme, mas ter feito todos os outros que o antecederam. E ter visto muitos. E ter esperado muita coisa deles. O pior... o pior ainda está para vir.

16 de outubro de 2008

Valsa Quase Antidepressiva

Dança comigo a primeira valsa da Primavera
Dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera
Já enchi os dias de lutas vazias: estou gasto, cansado, dormente
E a um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda não fico indiferente
Fala comigo na palavra falsa da fantasia
Chovem amigos na festa da praça do meio dia
É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo
Com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo.

Se este mundo fosse feito para ser doce eu seria doce fosse eu quem fosse

Foge comigo na última volta da maratona
Nada comigo num lago indeciso de metadona
Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar
Com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar

JP Simões

7 de outubro de 2008

Valerá a pena?

E não é que os dias encolhem mesmo?
E o Sol.
E o tempo.
E o sono.
E a vontade.
A única coisa que não encolheu por aqui foi o trabalho...